A mãe solo, por Amanda Mota

05/06/2018

A mãe solo

texto de Amanda Mota, professora da Dança Materna em São Paulo

 

Quando descobri minha gravidez, fui invadida por um mix de sentimentos. A surpresa, o encantamento em estar gerando um ser, a preocupação com o futuro… e, infelizmente, o julgamento da sociedade.

 

Eu tinha acabado de me mudar para Lisboa, ficaria por um ano fora do Brasil em busca de… em busca do que mesmo? A verdade é que estava lá, sozinha. Solteira é a palavra que costumam usar. Mãe solteira.

 

Decidi voltar pro Brasil pra ter o suporte emocional da minha família e do pai da minha filha e, aos poucos, fui contando a novidade para todos. E mesmo existindo mil coisas a serem ditas para uma gestante, as coisas que mais ouvia giravam em torno de: quem é o pai? Ele vai assumir?

 

Segui minha gestação pesquisando e estudando muito sobre o parto que teria e acabei caindo em um novo mundo. Parto humanizado, criação com apego, disciplina positiva, colo com amor. Tudo isso fazia muito sentido pra mim, e fazia mais sentido ainda continuar espalhando isso a outras mães, que já carregam tantos fardos no caminho.

 

Dentre tantas novidades, conheci dois termos que não conhecia: sororidade e mãe solo.

 

Se você nunca ouviu falar sobre sororidade, ela é resumidamente a união entre as mulheres. E na maternidade isso se tornou muito forte pra mim.

 

E em substituição ao título de mãe solteira, que sempre me soou machista e opressor, adotei o mãe solo, pois assumi a responsabilidade da criação da minha filha sozinha, independente do meu estado civil.

 

A resposta para o que eu estava procurando quando decidi fazer um intercâmbio pensando em mudar de vida, veio com a chegada da Alice. A maternidade mudou minha vida e minha visão de mundo. E foi quando conheci a Dança Materna, no auge do meu puerpério, me trazendo conforto, diversão, acolhimento e conexão com o meu bebê.

 

Eu, que já era professora de dança, fiquei encantada em estar ali dançando, unida a outras mulheres passando pelos mesmos medos e desafios. Decidi então que me tornaria uma professora também e, desde então venho semeando essa semente por onde passo.

 

Acontece que, com o decorrer dos meses, fui conhecendo a história de cada aluna que passava pelas minhas aulas, um perfil sempre bem semelhante. Branca, classe média, superior completo, entre 25 a 30 anos e casada.

 

Em quase um ano de aulas em locais diversos sabem quantas alunas passaram por mim que também eram mães solo como eu? Duas.

 

Dividi essa informação com as outras professoras da rede, tentando entender um pouco mais sobre essa questão. Será que minha mensagem não estava chegando a essas mães? E, pra minha surpresa, minhas colegas disseram que com elas sempre foi assim também.

 

Por mais que eu acredite no amor e na união de duas pessoas, eu tenho a ciência da quantidade de mães solos que existem por aí, mas onde elas estão?

 

Talvez se sintam tão reprimidas com o julgamento da sociedade que, assim que o bebê nasce, não se sentem seguras para encarar os olhares maldosos das pessoas.

 

Talvez estejam tão sobrecarregadas de tarefas que o tempo que lhes sobra é somente para dormir e recuperar as forças para o novo dia.

 

Talvez não tenham dinheiro para sequer pegar um ônibus e chegar a uma das aulas.

 

Talvez, e infelizmente, não tenham se conectados com seus bebês ainda. Não aceitaram o fato de serem mães e simplesmente não tem vontade de fazer nada.

 

São tantas as possibilidades e, talvez, sejam todas elas juntas.

 

Minha intenção com esse texto é encorajar essas mulheres. Saiam pras ruas! Estar com seu bebê em um ambiente feito pra vocês, é muito tranquilizador. Você terá oportunidade de formar uma rede de apoio muito poderosa, que te dará força nas horas mais difíceis.

 

Se a questão é financeira, existem eventos gratuitos onde a Dança Materna participa. Nós temos sling para emprestar (e algumas vezes até para doar). Em Ilhabela já conseguimos oferecer a Dança Materna pelo SUS. Algumas professoras fazem aulas solidárias e trabalhos voluntário em comunidades ou para mães de baixa renda.

 

As tarefas do dia-a-dia, casa, comida, trabalho… estarão lá sempre e pra sempre! Não tem fim. Então nada mais justo do que você tirar um tempo para se cuidar também. É preciso ter equilíbrio na vida, não só responsabilidades. Nossa aula dura 1:30h, uma vez por semana. Um tempo precioso que pode te ajudar a recarregar as energias para seguir em frente.

 

Durante a aula, durante a dança, você e seu bebê vão se conhecendo, se conectando, formando um vínculo de cuidado e amor. Não estou aqui dizendo que a Dança Materna será a solução de todos os problemas, mas com certeza deixará o dia mais leve.

 

Uma mãe solo não precisa ser sozinha. A Dança Materna é para todas!

 

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Please reload

CATEGORIAS

Please reload

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
  • Grey YouTube Icon

Dança Materna 2020.